O basquetebol compete pela atenção dos adeptos - por António Pereira

Desde o nascimento que o ser humano reclama atenção.

Primeiro da mãe, depois do pai, seguem-se os avós e, progressivamente, o círculo social mais alargado. Já em idade infantil, muitas crianças revelam uma capacidade natural para captar a atenção dos outros, seja em contextos familiares, escolares ou festivos. Alguns chegam mesmo a construir uma marca pessoal que os distingue dos demais.

Este fenómeno não é exclusivo das pessoas. Empresas e organizações competem permanentemente pela atenção dos seus públicos — clientes, consumidores e, no caso das organizações desportivas, dos adeptos ou fãs.

Os consumidores atuais tendem a criar laços de afinidade com marcas e organizações, tomando decisões menos racionais do ponto de vista financeiro e mais emocionais.

A escolha é frequentemente determinada pela identificação com valores, atitudes e compromissos, nomeadamente nas áreas da sustentabilidade financeira, social e de governação (ESG), que refletem a visão e o propósito da marca.

Esta redefinição do adepto/fan traduz-se em emoções como a alegria, o sentido de pertença à marca e a ligação a uma comunidade (a comunidade de adeptos do seu clube).

O adepto não consome apenas um jogo: consome uma experiência, um significado e uma identidade coletiva e quer saber tudo sobre a sua equipa, antes, durante e depois do jogo.

Num passado não muito distante, o basquetebol conseguia atrair adeptos que enchiam pavilhões e apoiavam as suas equipas com entusiasmo. Em Coimbra, era comum formarem-se filas duas horas antes do início dos jogos da Académica. O mesmo acontecia no Porto e em Lisboa. Os jornais desportivos — e até a imprensa generalista — dedicavam páginas inteiras à modalidade.

O basquetebol captava a atenção das pessoas.

Foto de Big Slam - Dale Dover (início dos anos 70) ajudava a encher pavilhões

Contudo, com a evolução e profissionalização do desporto, integrando-se numa nova realidade — a indústria desportiva, que também é, cada vez mais, uma indústria do entretenimento — o basquetebol foi perdendo fulgor e relevância mediática.

Ao manter-se preso a uma lógica de mera gestão de modalidade, o basquetebol revelou dificuldade em reconhecer e acompanhar as profundas transformações do ecossistema desportivo, que passou do associativismo para uma lógica da indústria desportiva e do entretenimento, altamente competitiva e orientada para o consumo de experiências.

Tal como descrito na Teoria do Oceano Azul, o basquetebol continuou a navegar num oceano vermelho: um mercado saturado e agressivo, onde marcas desportivas, culturais, redes sociais, plataformas audiovisuais e até o turismo competem ferozmente pela atenção das pessoas.

É, por isso, fundamental que o basquetebol passe a lutar estrategicamente pela atenção dos adeptos, procurando navegar num oceano azul — diferenciando-se, criando valor único face a outras formas de entretenimento e introduzindo inovação nas suas organizações e competições.

Para isso, é indispensável uma visão clara da modalidade e dos diferentes quadros competitivos.

Não basta definir formatos de competição, elaborar calendários, divulgar resultados ou publicar conteúdos nas redes sociais.

É essencial identificar o propósito do basquetebol e de cada nível competitivo.

O que se pretende de cada competição?

Competitividade? Entretenimento? Formação? Desenvolvimento de talento?

Com que tipo de jogadores? Nacionais? Estrangeiros? Que sustentabilidade da competição e dos clubes?

Quem são os adeptos?

Assistem aos jogos em casa? E fora?

Acompanham as competições pelos media tradicionais ou pelas redes sociais?

Compram merchandising?

Sentem pertença à marca desportiva?

São incondicionalmente fiéis ao basquetebol?

Em março de 2014, e no âmbito das eleições para a Federação Portuguesa de Basquetebol, escrevi um texto onde afirmava “a modalidade não pode continuar a ser gerida como no século passado; é imperioso que o basquetebol seja tratado como uma marca, capaz de inovar, de se diferenciar das restantes modalidades, com uma estratégia de comunicação eficaz, sustentada por gestores competentes, profissionais, com competências multidisciplinares e capacidade de concretizar ideias e projetos.”

Em 2026, esta reflexão mantém-se atual. É urgente identificar de que forma o basquetebol se pode diferenciar e construir um roteiro claro para essa transformação.

Num mundo marcado pela informação, pela inovação e pela sustentabilidade, o basquetebol precisa de voltar a captar a atenção dos adeptos/fans, para desse modo, acrescentar valor à indústria desportiva e do entretenimento e contribuir para a alegria e o envolvimento dos seus adeptos/fãs e diversos stakeholders.

Bibliografia:

https://apbasketball.blogspot.com/2014_03_01_archive.html


01/02/2026





 


António Pereira é ex-jogador de basquetebol da Associação Académica de Coimbra, e do Clube Académico de Coimbra (CAC), pelo qual se sagrou bicampeão nacional. Foi igualmente treinador da equipa sénior de basquetebol da Associação Académica de Coimbra (AAC), conduzindo-a à conquista do título de campeão nacional. Nesse período, liderou ainda uma digressão da equipa pelos Estados Unidos da América, onde competiu frente a universidades norte-americanas. Em 1984, orientou a equipa de juniores do Sport Clube Conimbricense alcançando a Fase Final nacional.

Foi pioneiro em Portugal na observação, análise e caracterização de jogadores de basquetebol, tendo a sua atividade de aconselhamento contribuído de forma decisiva para a integração de várias centenas de atletas no campeonato português e em competições africanos. Muitos destes jogadores alcançaram elevados níveis de reconhecimento, através da conquista de títulos, do cumprimento de objetivos coletivos e da obtenção de posições de relevo nos principais rankings estatísticos da modalidade.

É licenciado em Comunicação Organizacional, com especializações em Comunicação de Marketing e Comunicação de Relações Públicas, e detém o grau de mestre em Marketing e Comunicação. A sua dissertação de mestrado incidiu sobre a temática “A Responsabilidade Social das Organizações Desportivas e dos Atletas Profissionais: um estudo em Portugal e nos Estados Unidos da América”.

Desenvolve atividade regular como autor e analista na área da Gestão do Desporto, colaborando com diversos órgãos de comunicação social, entre os quais A BolaDiário de Coimbra e As Beiras, bem como em plataformas digitais dedicadas ao basquetebol e à gestão desportiva.

Ao longo da época de 2019/2020, publicou um estudo de referência sobre o basquetebol português, no qual analisou diversas dimensões da gestão da modalidade, com particular enfoque na comunicação e na análise do jogo, designadamente nomeadamente a afluência média de adeptos por partida, variações pontuais de resultados, bem como tempo de utilização de jogadores portugueses e estrangeiros, entre outros relevantes.

 

Links:

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